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Numerosos são os exemplos de afinidade entre as obras que os pré-heterónimos possuíram e os textos que foram criando, um dos mais flagrantes sendo o poema «Regret», assinado por Search, proprietário de The Poetical Works of Lord Byron (fig. 12):

Primeira estrofe do poema de Lord Byron:Primeira estrofe do poema de A. Search:
I WOULD I were a careless child,
Still dwelling in my Highland cave,
Or roaming through the dusky wild,
Or bounding o'er the dark blue wave;
The cumbrous pomp of Saxon pride,
Accords not with the freeborn soul,
Which loves the mountain's craggy side,
And seeks the rocks where billows roll.
I would that I were again a child
And a child you sweet and pure,
That we might be free and wild
In our consciousness obscure;
That we might play fantastic games
Under trees silent and shady,
That we might have fairy-book names,
I be a lord, you a lady.


Fig. 12. CFP 8-82. «Alexander Search».Fig. 12. CFP 8-82. «Alexander Search».
Fig. 12. CFP 8-82. «Alexander Search».


Esta abordagem criativa da leitura, que não se limita a uma correlação inter-textual, aponta também para uma sensibilidade própria de Pessoa relativamente a questões de autoria. Vários livros da sua biblioteca pertencentes a pré-heterónimos são de autoria controversa ou de autores que, por sua vez, recorreram a pseudónimos ou que decidiram publicar anonimamente: Mark Twain, por exemplo, foi o pen name de Samuel Langhorne Clemens; Chatterton assinou parte da sua obra como tendo sido criada por um monge do século XV; Prométhée enchainé de Ésquilo era desde o século XVIII um drama de autoria incerta; Hégésippe Moreau utilizou o nom de plume de Alphonse Dardenne; e Supernatural Religion: an Inquiry into the Reality of Divine Revelation, de Walter Cassels, foi publicado anonimamente em 1874, gerando especulação sobre a identidade de seu erudito autor.
Outra das particularidades, não menos digna de atenção, diz respeito ao trabalho dos pré-heterónimos e as línguas estrangeiras. Foi a partir da sua biblioteca que Pessoa começou a desenvolver o que viria a ser a sua terceira língua de escrita: o francês. Quem se lançaria propriamente nesta aventura seria Alexander Search ? leitor, juntamente com Pessoa, de algumas passagens de Entartung de Max Nordau na tradução francesa de Auguste Dietrich ( Dégénérescence ). Nas notas de leitura ainda existentes no espólio pessoano, o nome de Search aparece à margem de certos trechos, como se este pré-heterónimo fosse, por vezes, o leitor de Nordau. Esta leitura, que começou em Maio de 1907, terá conduzido Pessoa a fazer de Search um escritor-leitor também de língua francesa.
Quando olhamos para a biblioteca particular de Search, os livros em francês apresentam-se em maior quantidade (10), seguidos dos livros em inglês (9), em português (4) e em espanhol (2). A avidez crescente por livros franceses poderá estar ligada ao facto de Search tencionar escrever poesia nesta língua. No verso de um poema redigido em francês, e com a mesma caneta, encontramos a seguinte anotação: «French Verses | « A. Search » | « Alexander Search ») (BNP/E3, 50B 1 -59 v ).
Se para escrever obras de humor, como no caso dos irmãos Merrick (e no de Sidney Parkinson Stool), requeria, antes de mais, que eles fossem leitores deste tipo de obras, um livro de versos franceses obrigava a uma leitura desta natureza. Quando olhamos para o volume do bretão Auguste Brizeux, do qual Search era proprietário (fig. 13), por exemplo, e alguns versos que este pré-heterónimo escreveu, encontramos a íntima relação entre o leitor e o escritor.

Fig. 13. CFP 8-68. «Alexander Search».Fig. 13. CFP 8-68. «Alexander Search».
Fig. 13. CFP 8-68. «Alexander Search».