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(…) Não: a vida de Pessoa é na verdade a vida ideal do poeta; Pessoa é, como homem, a imagem da imobilidade. Ninguém quis ser menos aparente; toda a sua vida se envolve, não direi, porque detesto romantizar, de mistério, mas sim de discreto pudor, de amor ao silêncio e à contemplação. (…)

[Adolfo Casais Monteiro, A Poesia de Fernando Pessoa, INCM, 1985, O Insincero Verídico, pág. 89]

 

(…) Quais as razões psicológicas da inaptidão para o amor concreto e real – anímico e físico –, tão dolorosamente manifestada por Fernando Pessoa?
Já vimos que o poeta foi um idealista e um grande romântico. E já observámos o seu lado-Álvaro de Campos, isto é, uma certa pulsão homossexual, transparente nalgumas das Odes do «engenheiro naval» e confessada em página íntima, onde diz: «sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina»; e «É uma inversão sexual frustre. Pára no espírito».
Junto de Ophélia, o problema pode ter estado prestes a resolver-se, apesar das interferências (episódicas) de Álvaro de Campos, isto é, do seu demónio interior, talvez menos antimulher do que anticasamento. (…)

[António Quadros, Fernando Pessoa – vida, personalidade e génio, Publicações Dom Quixote, 1984, pág. 174]

 

(…) Sem dúvida que a interpretação mais interessante do cigarro, e do vício do fumo em geral, foi dada (concorde-se com ela ou não) por Sigmund Freud nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Segundo a teoria de Freud, o vício do fumo, que se baseia no mecanismo da sucção, reenvia à fixação dum estádio infantil, à não-superação da chamada «fase oral» da criança. Muitos críticos de Ítalo Svevo seguiram a pista da interpretação freudiana, ao passo que, muito curiosamente, se excluirmos algumas inteligentes e rápidas referências de Georges Güntert e de Armand Guibert, o vício do fumo de Pessoa-Campos nunca foi analisado como, segundo a minha opinião, merecia. (…)

[Antonio Tabucchi, Pessoana Mínima, INCM, 1984, Pessoa, Campos e os Cigarros, págs. 65/66]  


(…) Foi, decerto, uma boa relação neurótica, com algo de maníaco, como são os amores que, por norma, duram toda uma vida: exactamente o contrário de certas paixões libertadoras, arrebatadoras e todas baseadas na relação carnal. Não: esta relação foi, sem o ser, um matrimónio e, como tal, nutriu-se de hábitos, de decoro, de dedicação e de mesquinhez. Não arrebatou nada. Simplesmente esgotou-se na pura ideia ou na pura estrutura matrimonial, prescindindo do tálamo. Mas, no fim de contas, o que tem o sexo a ver com isto? Para Pessoa foi isto a essência do amor, não a sua realização no plano pragmático, tal como o ortónimo a teorizara já em poesia: O amor é que é essencial/ O sexo é só um acidente. / Pode ser igual/ Ou diferente. / O homem não é um animal: / É uma carne inteligente, / Embora às vezes doente. (…)

[Antonio Tabucchi, Pessoana Mínima, INCM, 1984, Pessoa, Um Fausto Mangas-de-Alpaca: as «Cartas de Amor» de Pessoa, pág. 56]


(…) Num dos seus raros poemas humorísticos, medido e rimado, o poeta se assina, informando: “Comunicado pelo Engenheiro Naval Sr. Álvaro de Campos em estado de inconsciência alcoólica”.
Acreditando nas próprias palavras de Fernando Pessoa na carta a Casais Monteiro, pela qual comecei, as biografias dos heterónimos foram feitas como todas as biografias, a posteriori. Só que neste caso a vida a contar só existia nos poemas, origem e meio de os poetas existirem. Fazer de Álvaro de Campos um engenheiro era buscar a raiz do seu interesse pelas máquinas, pelos ruídos da vida moderna, pela sua violência. (…)

[Cleonice Berardinelli, Fernando Pessoa: Outra vez te revejo…, Lacerda Editores (Brasil), 2004, Dois Poetas”Engenheiros”, pág. 153]


(…) Agora pergunto; como é que alguém tão empenhado em ser ninguém, tão apostado não só em recusar as tais «realidades fortes da vida» mas também em negar, muito mais por dentro, a própria vida como realidade, como é que deste aspirante a nenhum, capitão do nada, general em nenhures, não hão-de interessar os óculos, o bigode, a gravata ou o laço, o chapéu, as polainas, a mesa do café aonde se sentava (ou não se sentava)? (…)

[David Mourão-Ferreira, Nos Passos de Pessoa, Editorial Presença, 1988, Do Auto-Apagamento de Pessoa a CertasTácticas de Publicação, pág. 84]


(…) Tudo é humilde nestes textos, por outro lado, vertiginosos. A bem dizer, as nobres referências literárias pertencem demasiadamente ao mundo da teoria para podermos, sem outra forma de procedimento, dar-lhes por companhia, ou eco, este «livro de pobre», este evangelho sem mensagem, esta espécie de estertor ontológico de uma voz que experimenta dizer-se, de uma existência que experimenta, também, existir. Claro que sabemos que por detrás deste grito abafado, desta repetida e interminável afirmação de uma impotência de ser, a da existência cinzenta incarnada por Bernardo Soares, existe o olhar frio, de uma neutralidade e de uma lucidez quase perversa que são património de Fernando Pessoa. Mas aqui, o jogador de xadrez indiferente, como se assumiu sob a máscara de Ricardo Reis, não joga outra coisa senão o seu xeque-mate existencial absoluto, a sua realidade humana sem nexo e sem verdadeira ligação aos outros, vida puramente sonhada, voluntariamente distanciada por essa espécie de sorriso vindo de dentro do desespero que faz com que certas páginas do Livro do Desassossego sejam, ao mesmo tempo, insuportáveis e estranhamente libertadoras. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, O “Livro do Desassossego” ou o Memorial do Limbo, pág. 96]

 

(…) Depois do herói de Homero, viajar deixou de ser, apenas, ir de um porto ao outro através de um espaço-obstáculo que faz com que aquele que se desloca adquira valor, positivo ou negativo. Viajar é, também, entrar em diálogo com esse espaço, ou ser «dito» por ele, situação que converte o viajante em sujeito de uma ficção ou de uma encenação mais ou menos conseguidas, de que ele e o mundo são cúmplices. Neste sentido, houve sempre em Pessoa algo que se opôs à encenação do mundo através de uma qualquer deslocação. «Viajar, perder países» é um dos versos em que revela uma atitude completamente oposta à de Cesário Verde, para quem viajar significava ganhar países. Talvez que no imaginário de Pessoa o desinteresse pelo acto de viajar e pela viagem fosse o resultado das múltiplas formas da inapetência vital que lhe caracterizou a infância. Todo e qualquer esforço sério no sentido de se tornar outro ou diferente através de uma mera alteração de cenário se lhe afigura uma perda do ser, aquilo que mais tarde exprimirá na imagem célebre do cansaço invencível que o impede de apanhar o eléctrico. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, Pessoa ou as três viagens, pág. 149]


(…) Nenhuma vivência humana contém, por isso, uma carga de irrealidade mais profunda do que aquela que chamamos amor, objecto quase exclusivo da lírica ocidental. A poesia de Pessoa, enquanto poética confessa e obsessiva da consciência como solidão ontológica, tinha de ser, fatalmente, uma poesia do não-amor. O que ela é de facto, mas em termos tão inabitualmente atrozes que de si mesma se assinala como o lugar de um sofrimento sem nome, de alguma maneira, como puro vazio afectivo, análogo na sua inversão ao que denominamos classicamente sofrimento de amor. Na verdade, esse vazio afectivo é essa espécie de ferida, e toda a poesia de Fernando Pessoa o seu eco inutilmente multiplicado. (…)

[Eduardo Lourenço, Fernando – Rei da Nossa Baviera, INCM, 1993, Fernando Pessoa Ou o Não-Amor, pág. 62]


(…) No seu ar de imitar a Antiguidade na sua perfeição ideal de mármore inscrito, dialogando com ela e na verdade digna dela, o que sobressai é um é um fundo de angústia moderna, como moderna sob cor antiga é a resposta para a não-resposta de onde nasce e extravasa. Nós somos tempo e nada mais, nós somos como depois de Schopenhauer tantas vezes se repetiu, uma breve luz irrompendo sem razão no seio de uma vida desprovida dela e de novo reenviada à pura noite? Pois se assim é, seja assim. Aceitemos o jogo e joguemo-lo que só nessa aceitação voluntária «o bem consiste». (…)

[Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o inacessível paganismo, págs. 53/54]


(…) A insónia é isso: uma recuperação do horizonte que suspende a continuidade útil do real quotidiano, que puxa as sensações como elásticos e nos precipita no próprio abismo desse horizonte inicial; como se diz em «Na floresta do alheamento», «orlas de mares desconhecidos tocavam, no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-los que não os fins úteis e comandados da Terra». Estamos face a «esta coisa nenhuma da vida universal que está lá fora» e que é «a invisibilidade visível de tudo». (…)

[Eduardo Prado Coelho, A Noite do Mundo, INCM, 1988, Poética do desassossego: a insónia, pág. 56]


(…) Curioso é o modo como se refere ao papel desempenhado por Cesário no aparecimento de Alberto Caeiro. Cesário teria actuado apenas como um estímulo, como um ponto de partida; o caminho traçado por Caeiro, depois, só a ele pertenceria. O exemplo de Cesário teria posto em movimento, teria accionado uma energia que veio a regular-se a si própria, a encontrar a sua própria direcção. Cesário teria actuado junto de Caeiro como um agente catalítico, como uma voz que o ajudou a descobrir-se, a revelar-se a si próprio. A sua influência no autor de O Guardador de Rebanhos não se processara, assim, ao nível da transmissão de «qualquer espécie de inspiração»; agira, antes, como estímulo, como detonador da «inspiração». (…)

[Fernando J. B. Martinho, Pessoa e a poesia portuguesa – do “Orpheu” a 1960, Biblioteca Breve ICLP, 1983, pág. 21]


(…) E, no entanto, aí estão os factos: de 1915 até 1917, Pessoa escreveu oito poesias, cuja temática está relacionada com a Grande Guerra, e que nos permitem a nós definir com toda a clareza desejável a sua posição perante o fenómeno da guerra na generalidade. Creio que esta definição possui, nos tempos que correm, algum interesse, pois o testemunho moral dum grande autor convém ser ouvido, mesmo que não exerça qualquer influência imediata nos acontecimentos. (…)

[Georg Rudolf Lind, Estudos Sobre Fernando Pessoa, INCM, 1981, Fernando Pessoa Perante a Primeira Guerra Mundial, págs. 425/426]


(…) Para Fernando Pessoa, recordar não é reviver, é apenas verificar com dor que fomos outra coisa cuja realidade essencial não nos é permitido recuperar. Vimos da sombra e vamos para a sombra. Só o presente é nosso, mas que é o presente senão a linha ideal que separa o passado do futuro? Assim toda a vida é fragmentária, a personalidade una é uma ilusão, não podemos apreender em nós uma constante que nos identifique. O sentimento heraclitiano da transitoriedade das coisas conduz à negação do eu. Viver no tempo é depararmo-nos com o vazio de nós próprios: «Quem me dirá quem sou?» (…)

[Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Editorial Verbo, 1979, Ser e Conhecer-se, pág. 89]

 

(…) Quanto à cultura portuguesa moderna, Pessoa não é menos displicente. Portugal estava abastardado pelo estrangeiramento da mentalidade, estava esquecido de si mesmo, e o seu embasbacamento perante o estrangeiro não passava de um sintoma do seu provincianismo. Pessoa insiste nos efeitos corrosivos do catolicismo e da democracia moderna – ambos produtos alheios à alma nacional –, como se demora na análise do «provincianismo mental português», exemplificado em Eça de Queirós: «O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós […] porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado» (Páginas de Doutrina Estética, pág. 184) (…)

[Jacinto do Prado Coelho, A Letra e o Leitor, Portugália Editora, 1969, O Nacionalismo Utópico de Fernando Pessoa, págs. 274/275]
 

(…) Definido o reino da arte como reino do universal e dada como assente a incompatibilidade entre o temporal e o universal (como se este fosse uma substância metafísica e não algo que abstraímos de realidades concretas localizadas no espaço e no tempo), o homem de génio será aquele que supera a sua época por estar «em oposição a ela». Pessoa divide os homens entre superiores e inferiores: aos primeiros, os «génios», desvinculados da comunidade, colocados pelo Fatum «acima da espécie», tudo é permitido; os outros são meros componentes da massa ignara, são os «homens da espécie» (e note-se que todas as mulheres, sexo cuja finalidade é procriar, se incluem nesta categoria): «O homem da espécie não pode ter opiniões, porque a opinião é do indivíduo, e desde que um homem pertença organicamente a uma família, a uma classe, a qualquer coisa que constitua ambiente imediato e vivo, deixa de ser um indivíduo para ser uma célula qualquer» (Páginas de Estética, pág. 133) (…)

[Jacinto do Prado Coelho, A Letra e o Leitor, Portugália Editora, 1969, As Ideias Estéticas de Fernando Pessoa, págs. 289/290]


(…) Quem queria encontrar o escritor nesta triste fase da sua existência procurava-o na Leitaria Alentejana. Era aí, sentado a um canto, em frente de uma das mesinhas de tampo de mármore, que ele lia, escrevia e fazia a sua correspondência, aproveitando, inclusivamente, o papel timbrado do estabelecimento do generoso mecenas. (…)

[João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, Livraria Bertrand, 4ªEd. 1980, Dorme Numa Leitaria e é Expulso de um Jornal, pág. 328]  


(…) V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades – a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui. (…)

[Jorge de Sena, Fernando Pessoa & Cª Heterónima (estudos coligidos 1940-1978), edições 70, 2000, Carta a Fernando Pessoa, pág. 19]
(…) Só o poeta que se domine conscientemente e voluntariamente, durante a gestação do poema cujo significado desconhece ainda (e cuja complexidade significativa lhe escapará em parte), só ele será capaz de atingir, tão mais de perto quanto possível, uma verdade não perturbada pelas circunstâncias factuais da criação, as quais se cifram em imagens recorrentes, em tópicos analogicamente sugeridos, em ritmos de respiração momentânea, nos inúmeros escolhos que o ambiente, a idiossincrasia, a cultura, a educação, as tendências ideológicas, o momento político, etc., propõem uma gestação, difícil, para que ela naufrague na comodidade, no hábito e até no virtual aplauso do público e da crítica. (…)

[Jorge de Sena, Fernando Pessoa & Cª Heterónima (estudos coligidos 1940-1978), edições 70, 2000, «O poeta é um fingidor» (Nietzsche, Pessoa e outras coisas mais), págs. 98/99]


(…) Fernando Pessoa sabia perfeitamente (e desde muito cedo na vida) que, apesar do génio de um ou outro dos seus amigos e companheiros, e de alguns outros na geração seguinte, a primeira metade do século XX, em poesia escrita em português, seria sua, para lá da grandeza que lhe daria um lugar muito próximo de Camões na história literária. Eu ainda conheci muitas pessoas da geração dele, dos grandes e dos menos grandes, e pude por mim próprio verificar quanto se curvavam ou tinham curvado à sua indisputada superioridade intelectual, do mesmo passo que defendiam com unhas e dentes de serem devorados ou transformados em «heterónimos» - o que faziam com sorrir-se de tais mistificações, ou com acentuar a que ponto Pessoa insistia em dizer que morreria sem realizar por completo a sua obra… (…)

[Jorge de Sena, Fernando Pessoa & Cª Heterónima (estudos coligidos 1940-1978), edições 70, 2000, Fernando Pessoa: o homem que nunca foi, págs. 357/358]


(…) Se um heterónimo evoca ou oculta, no seu discurso, esta ou aquela voz alheia – e sabe-se como cada um deles tomou como paradigma vários poetas, artistas, filósofos ou mestres espirituais –, ei-lo que se torna do mesmo passo um porta-voz para os mesmos heterónimos, que por sua vez lhe devolvem, transformados, os ecos citacionais estranhos: ecos de ecos, repercutindo-se ad infinitum. «Meu e alheio / e por mim mesmo lido» – tal deveria ser, para Ricardo Reis, poeta em segundo grau, imitador de Horácio, todo e qualquer verso. Mas o próprio ortónimo subscreveu essa poética intertextual do seu homólogo: «Por isso, alheio, vou lendo / como páginas, meu ser» – responde-lhe ele, ecoando-o. Não admira que Reis e Pessoa um ao outro expressamente se citem, como quando ambos falam dos «cadáveres adiados que procriam», em versos que, com a simples transformação de singular em plural, se encontram reproduzidos na Mensagem e numa das Odes. Esta reduplicação é um exemplo preciso do entrosamento da intertextualidade e da intratextualidade. (…)

[José Augusto Seabra, O Coração do Texto – novos ensaios pessoanos, Edições Cosmos 1996, Intertextualidade e intratextualidade, pág. 13] 

(…) Se houve poeta contemporâneo cuja obsessão tenha sido a de uma re-construção das relações entre o pensamento e a linguagem, a partir da crise mesma da filosofia, esse poeta foi sem dúvida Fernando Pessoa. «A poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras», tal é uma das fórmulas lapidares em que se vaza a sua poética, mesmo se ele acaba por subsumir as ideias nas sensações, exorcizando a filosofia e a própria poesia, com «mestre» Caeiro, hipóstase-chave do seu poetodrama. (…)

[José Augusto Seabra, O Coração do Texto – novos ensaios pessoanos, Edições Cosmos 1996, Poética e filosofia, págs. 22/23]


(…) O trágico pessoano dissemina-se, em suma, arquitextualmente, pelos discursos heteronímicos, em poesia e em prosa, num polílogo em que as personae, as máscaras, diversamente contracenam: «Sou a scena viva onde passam vários actores representando várias peças», diz Bernardo Soares. Essas personae, que dialogicamente no heterotexto se revezam, são ao mesmo tempo, reversivelmente, um coro que se comenta infinitamente a si mesmo, outro. (…)

[José Augusto Seabra, O Coração do Texto – novos ensaios pessoanos, Edições Cosmos 1996, O trágico pessoano, pág. 34]


(…) Ele tinha o seu laboratório de linguagem. Estava consciente disso, e espantava-se e maravilhava-se como se tudo se passasse fora dele. «No lado de fora de dentro», como ele próprio diria. Porque era realmente dentro dele que se produzia a obra, que se aceleravam os mecanismos que acompanham a produção de palavras, de metáforas, de versos, de poemas, de odes inteiras. Observava-se, examinava atentamente o trabalho rigoroso do poeta, as transformações sofridas por essa matéria-prima (as sensações) de que emergia a linguagem. Matéria-prima ou transformada, porque se tratava também dos efeitos das palavras sobre a receptividade dos sentidos; não importa: por uma dessas reviravoltas em cascata em que ele era mestre, e graças às quais o segundo se torna primeiro, o direito, avesso, ou o dentro, fora, o seu próprio laboratório poético transformou-se em matéria de linguagem; produtor de sensações aptas a converter-se em poema. (…)

[José Gil, Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações, Relógio d’Água, 1996, O Laboratório Poético, pág. 9]


(…) Seguir «o fumo como uma rota própria» é a dimensão atópica da escrita, onde o sujeito se vota à dispersão e ao desaparecimento arrastando consigo a memória de outras rotas, as da descoberta, do comércio ou da lucidez. É passar dos percursos com destino aos labirintos do acaso. Sobrepor ao mundo as nuvens que o apagam. Dissipar. Deixar, no poema, um mapa do desaparecimento., percursos de tinta que duplicam as rotas do fumo, assinalam o fogo ausente. (…)

[Encontro Internacional do Centenário de Fernando Pessoa, SEC, 1990, As Rotas do Fumo, Silvina Rodrigues Lopes, pág. 326] 


(…) Se há uma unidade em Pessoa, esta da busca sempre racional de uma mundividência conscientemente criada a partir das tradições da sua cultura será talvez a única possível. Porque ele não a conseguiu e porque até ao fim da vida duvidou sempre e se sentiu constantemente outro, será difícil, mesmo com o que quer que haja do espólio ainda por ser revelado, conciliar uma unidade assente nos alicerces da filosofia hermética com as afirmações que mesmo na última fase da sua vida continuou ainda a fazer e que revelam que o Fernando Pessoa-plural o acompanhou sempre. (…)

[Encontro Internacional do Centenário de Fernando Pessoa, SEC, 1990, Pessoa e Verdade(s)… ou a Crítica do Abuso de Leituras Herméticas, Onésimo Teotónio Almeida, pág. 200]


(…) Regressar a Lisboa, em 1905, representou uma escolha consciente: a de não prosseguir uma formação, até aí brilhantemente feita, na língua e na cultura inglesas, e a de se arrancar ao aconchego do seio materno. Até por sinal voltou para a casa da avó paterna, na Rua da Bela Vista, à Lapa, onde viviam também duas outras tias-avós maternas. A primeira herança que, em 1907, recebeu por morte desta avó Dionísia (viúva do general Pessoa, de Tavira) permitiu-lhe outro gesto de emancipação da mãe e do padrasto: comprou a tipografia editora que baptizou Ibis e abandonou os estudos. Sem arriscar interpretações psicanalíticas, este gesto de tomar distância de uma família e de uma terra que o segundo casamento da mãe lhe tinha imposto e para o que não tinha sido, naturalmente, tido nem havido, parece-me representar um reatar de laços com a terra de seu pai, o descendente directo desses «fidalgos e judeus» de que se orgulhava de descender. (…)

[Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer, Roteiro para uma Exposição I, Editorial Estampa, 1990, Entre o Deus do Pai e o Deus da Mãe, pág. 67]


(…) Interessante é distinguir em Álvaro de Campos, para lá da melodia aparente (o estilo que o diferencia), a harmonia profunda (a estrutura simbólica) que o reúne aos seus antecessores, Pessoa, Caeiro, Reis. Por trás do grito, uma mesma pulsão de apagamento e morte. As sensações a que Álvaro de Campos se entrega, ora o condensam no centro mais íntimo ora o dispersam no exterior mais interior de si mesmo. A noite, a água escura em que deseja afogar-se, é a imagem mesma da sua dissolução. Não há viagem, no sentido em que não há transformação, positiva ou negativa, para ele. Em cada impulso, em cada movimento, aquilo que se confirma é a imobilidade e a paragem do sono (não do sonho), antecessor do nada que é a morte. (…)

[Y. K. Centeno, Fernando Pessoa: Os Trezentos e outros ensaios, Editorial Presença, 1988, Álvaro de Campos: a carroça de tudo pela estrada de nada, págs. 69/70]